24 janeiro 2013

Socorro em montanha – 9ª parte - Fracturas

- O aparelho Locomotor


O aparelho locomotor encarrega-se de sustentar o corpo e proporcionar-lhe a estrutura necessária para se deslocar.



Está constituído pelos ossos, articulações e músculos.
Os ossos são formados por um tecido duro e resistente. No seu interior encontra-se a medula óssea, onde se fabricam as células sanguíneas (glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O conjunto dos ossos forma o esqueleto.




Os ossos podem ser classificados em:

. Longos (ex. Fémur)





. Curtos (ex. ossos da mão)




. Chatos (ex. ossos do crâneo)




O esqueleto humano está constituído por cerca de 206 ossos

O esqueleto está dividido em partes bem diferenciadas:

. Crânio e cara.
. Coluna Vertebral.
. Caixa Torácica.
. Extremidades superiores.
. Cintura escapular: permite relacionar as extremidades superiores com o resto do esqueleto através dos ombros, estando formada pelas clavículas e as escápulas ou homoplatas.
. Extremidades inferiores.
. Cintura pélvica: permite relacionar as extremidades inferiores com o resto do esqueleto através dos quadris, estando formada pela pélvis.
As articulações são as estruturas que unem os ossos entre si. Existem articulações fixas (as do crânio), semimóveis (as das vértebras) e móveis (joelhos, cotovelos, etc).
As articulações móveis constam de:
. Superficies articulares: parte dos ossos que estão em contacto entre si.
. Cartilagens articulares: revestem as superfícies articulares para evitar o seu desgaste.
. Ligamentos articulares: mantém o contacto e a estabilidade entre as superfícies articulares.
. Cápsula articular: delimita a articulação e estabiliza-a.
. Cavidade articular: é o espaço compreendido entre as superfícies articulares e a cápsula articular.
. Membrana sinovial: camada que reveste interiormente a cavidade articular.
. Sinóvia: líquido secretado pela membrana sinovial para lubrificar a articulação.
. Discos fibrosos: interpõem-se entre as superfícies articulares de algumas articulações para as tornar compatíveis (meniscos dos joelhos).





Os músculos representam o elemento activo que assegura a dinâmica (movimentos) e estática (postura) do corpo.

As principais funções do esqueleto são:

. Suporte e apoio aos outros órgãos
. Protecção de agressões externas aos órgãos vitais
. Locomoção através de uma estrutura rígida que se flexibiliza a nível das articulações e por movimentos de contracção-distensão de conjuntos de músculos.

Lesões do aparelho locomotor



Podem ser:

. Fracturas, se afectam os ossos.
. Entorses e luxações, se afectam os ligamentos articulares. (tema a tratar noutro artigo)
. Lesões musculares, (distensão, cãibra) se afectam os músculos (tema a tratar noutro artigo)






Fractura:
consiste na perda de continuidade da substância óssea.

A fractura pode ser aberta ou fechada.

. Fractura Aberta ou exposta:

Existe uma ferida na continuidade da fractura, existindo a possibilidade de que os microorganismos penetrem no foco de fractura, desde o exterior.



As fracturas abertas podem ainda dividir-se em três subgrupos consoante a natureza da ferida:

Grau I: de dentro para fora

Os fragmentos ósseos (esquírolas ósseas), ao angularem-se, provocam edema e perfuração da pele, de dentro para fora. A ferida é geralmente, pequena (< 1 cm) e está relativamente limpa.




Grau II: de fora para dentro

O mesmo agente físico que provocou a ruptura do osso lesa a pele e os outros tecidos moles adjacentes. A ferida é geralmente grande (> 1 cm e < 3 cm) de aspecto sujo e com os bordos muito macilentos.





Grau III:

Existe grande afectação das partes moles com destruição de músculos, vasos sanguíneos, nervos e perda de substância. A ferida tem geralmente mais que 3 cm de diâmetro.




. Fractura Fechada:

 A pele está intacta ou as feridas existentes não estão relacionadas com a fractura.

A fractura pode apresentar diversos tipos de deformidade:

. Deslocamento:
Se um dos extremos ósseos sofreu um desvio relativamente ao outro osso.

. Angulação:
Deve ser corrigida porque pode afectar a função do membro fracturado.

. Rotação:
Movimento de um dos fragmentos ósseos relativamente ao seu eixo, por vezes apenas visível em radiografias que mostrem os dois extremos do osso.






Fissuras:

são fracturas muito finas produzidas por um traumatismo mínimo que é suficientemente intenso para produzir a fractura, mas não tanto, ao ponto de a deslocar. Podem ser difíceis de ver nas radiografias, pelo que se aconselha utilizar projecções obliquas ou repetição da radiografia ao fim de 7 a 10 dias, quando se consegue ver mais nitidamente devido à descalcificação que se produz no foco da fractura.
As fracturas de fadiga por sobrecarga costumam ser deste tipo e geralmente não são diagnosticadas até que aparece a protuberância produzida pelo calo de consolidação óssea ou pela maior densidade no foco da fractura após 3 a 6 semanas depois do início dos sintomas.

As fissuras – com a excepção do escafóide e do fémur – costumam consolidar rapidamente e apenas necessitam de tratamento sintomático.

Actuação por parte do socorrista/montanheiro

Apenas se podem tratar de forma extra-hospitalar,  as contusões, distenções e algumas fracturas sem deslocamento.




Fracturas:

Quando não são evidentes, suspeita-se sempre perante a história clínica e pela observação e confirmam-se apenas através de radiografia.

Os sinais e sintomas mais evidentes são:

. Presença de um antecedente traumático.
. Dor intensa, de aparecimento brusco na zona afectada, ainda que por vezes apenas existam pontos sensíveis à palpação do osso desde qualquer ângulo.
. Edema, resultante de uma reacção normal de defesa do organismo ao trauma.
. Hematoma, que será maior quanto maior for o diâmetro do osso.
. Equimoses e hematomas são frequentes nos traumatismos directos.
. Impotência funcional; a extremidade afectada não pode realizar a sua função habitual.
. Deformação: assimetrias do contorno , encurtamento do membro ou a posição em comparação com o outro lado.
. Ponto de impacto, lesões na pele ou tumefacção da zona afectada.
. O lesionado pode ter notado uma rachadela.
. Mobilidade anormal.
. Crepitação óssea (barulho dos ossos a roçar uns nos outros quando fracturados). Situação que pode ser ouvida e sentida. A pesquisa deste sinal é muito dolorosa para o sinistrado, podendo provocar lesões vasculares e nervosas, pelo que se deve evitar pesquisar.
. Em fracturas abertas pode-se observar o osso desde o exterior. São indicação de que o traumatismo responsável pela fractura foi de grande violência.

Em caso de dúvida actua-se sempre como se estivéssemos na presença de uma fractura.





Principais complicações das fracturas:

. Choque.

. Ferida.

. Lesões vasculares. Possibilidade de hemorragia interna importante com consequente choque hipovolémico.

. Infecção, dos topos ósseos fracturados e dos demais tecidos lesados.

. Lesão nervosa. Os locais mais frequentes são a nível da clavícula, úmero, cotovelo, fémur, joelho e coluna vertebral.

. Possibilidade de lesão visceral em órgãos adjacentes, por exemplo, pulmão, fígado, baço, bexiga, uretra.

. Síndrome compartimental. O edema da extremidade comprime a circulação capilar, causando isquémia. O sinistrado apresenta, passadas algumas horas, fraqueza, dor persistente e paralisia. Os pulsos distais estão geralmente presentes

. Embolia gorda. Trata-se de uma complicação grave e potencialmente letal, causando distúrbios respiratórios, normalmente passados três a quatro dias após o traumatismo.






Perda potencial de sangue nas fracturas fechadas:

. Fractura da bacia: perda de 1 a 5 dm3 de volume de sangue.
. Fractura do fémur: perda de 1 a 4 dm3 de volume de sangue.
. Fractura dos ossos da perna: perda de 0,5 a 1 dm3 de volume de sangue.
. Fractura dos ossos do antebraço: perda de 0,25 dm3 de volume de sangue.
. Fractura do úmero: perda de 0,5 a 1 dm3 de volume de sangue.
. Fractura da coluna vertebral: perda de 1 a 2 dm3 de volume de sangue.


Os objectivos principais do socorro a fracturas são:

. Conseguir uma boa consolidação óssea sem deformidade.
. Restabelecer a função.
. Reduzir a dor.

Actuação do socorrista/montanheiro perante uma fractura:

. Examinar a vitima para descartar outros problemas mais graves, como alteração dos sinais vitais (pulso, respiração, tensão arterial) ou hemorragias e actuar segundo a ordem de prioridades.

. Prevenir o estado de choque, mantendo a vítima deitada, agasalhada e controlando os sinais vitais.

. Aconselhar a vítima a manter-se na posição mais confortável e que lhe provoque menos dor.

. Expor o foco da fractura, cortando a roupa que o envolve, se necessário.

. Para transportar a vítima para um hospital, é necessário efectuar uma boa imobilização, de forma a evitar a dor e as complicações provocadas pela mobilidade durante o transporte.

. Avaliar a localização, tipo, deslocamento, angulação, afectação da pele, vasos sanguíneos e nervos. Deve-se suspeitar de rotura vascular se houver um sangramento, um hematoma pulsátil ou pulso anormal. Suspeitar de compressão vascular se houver ausência de pulso, palidez, formigueiro ou anomalias motoras.

. Controlar hemorragias, através de compressão manual indirecta.

. Retirar anéis, pulseiras e relógios da extremidade afectada para evitar que façam compressão.

. Por regra, o socorrista/montanheiro não se deve cingir à fractura. Se a deformação for tão grande que a pele tenha risco de ser lesada, pode-se tentar recolocar suavemente o extremo distal do membro, embora não seja muito aconselhável se não possuir conhecimentos necessários para tal manobra.

.Proceder à imobilização do membro, tendo o cuidado de não fazer redução da fractura, nem modificar a posição do membro.


O socorrista experiente pode tentar reduzir as fracturas deslocadas. Para isso, após verificar a existência de pulso distal, deve-se fazer tracção, geralmente no eixo da extremidade para se conseguir um alinhamento de todas as estruturas. Se após a tracção se perder o pulso distal, retira-se a tracção e recomeça-se esta antes de imobilizar. As angulações que se observem depois da tracção podem-se corrigir colocando uma mão debaixo da fractura e aplicando pressão com a outra mão.




. Devem-se evitar os movimentos no foco da fractura empregando uma imobilização temporária até completar o exame da vítima. A imobilização da extremidade fracturada efectua-se na mesma posição em que a encontramos, uma vez que o ferido adopta sempre e espontaneamente a posição mais confortável e menos dolorosa. Deste modo diminuirá a dor, a hemorragia e a possibilidade de uma fractura fechada se converter em aberta.

. Imobilizar o membro afectado com talas (na montanha, geralmente improvisadas), acolchoando previamente as proeminências ósseas. A imobilização deve abranger até à articulação que esteja acima e/ou abaixo do foco da fractura.



. Se a fractura for aberta, deve-se lavar com água e tapar com compressas esterilizadas, evitando tocar no topo ósseo em caso de fractura exposta em que se coloca uma “sogra” em volta do topo ósseo exposto antes de cobrir, faz-se a imobilização do membro e se possível iniciar tratamento antibiótico.

. Seguidamente e com a maior rapidez possível, deve-se providenciar o transporte do sinistrado a um centro hospitalar.

Coberturas e imobilizações:

Coberturas:
As coberturas servem para segurar pensos, tapar feridas, fixar talas, suspender membros e inclusive fixar e imobilizar extremidades.

Posição funcional da articulação que se deve ter em conta nas coberturas

. Ombro: 90º de flexão.
. Cotovelo: 90º de flexão.
. Pulso: 20º de flexão dorsal.
. Metacarpofalângica: 45º de flexão.
. Interfalângica proximal: 90º de flexão.
. Interfalângica distal: 45º de flexão.
. Anca: em extensão.
. Joelho: 20º de flexão.
. Tornozelo: 90º entre o pé e a perna.





Imobilizações:

. A imobilização de uma fractura inicia-se por uma ligeira e suave tracção (a tracção de um membro não corresponde ao acto da redução “fazer voltar ao seu lugar os ossos fracturados”. A redução é um acto médico ou de pessoal especializado) prévia da mesma, segundo o eixo em que se encontra o membro, seguida de alinhamento e estabilização dos ossos.

. Quando as lesões são articulares, a tracção a exercer deve ser mínima e realizada com a participação activa do sinistrado. No caso de resistência à mobilidade, a fractura deve ser imobilizada na posição em que se encontra.

. A imobilização das extremidades alivia a dor, produz hemostasia e diminui a lesão tecidual no local da fractura.

. Deve-se imobilizar o membro fracturado,  para evitar que a fractura se volte a deslocar.


. Deve-se imobilizar no mínimo uma articulação acima e outra abaixo do foco da fractura, com a finalidade de evitar a movimentação da zona fracturada.

. Deixar os dedos a descoberto, de forma que se consiga observar, no caso de aparecimento de sinais e sintomas de pressão excessiva provocada pela cobertura (escurecimento dos dedos, temperatura, perda de sensibilidade, formigueiro, motricidade, etc).

. Para imobilizar o membro, utilizam-se talas que mantém  a extremidade lesionada em posição fixa e impedindo o seu movimento. Normalmente utilizam-se duas talas, para a parte interior da extremidade lesionada e outra para a parte exterior.

Geralmente os membros superiores necessitam de suspensão.







Complicações graves das fracturas:

Imediatas:

. Hemorragia com choque hipovolémico.
. Lesões vasculares.
. Lesões viscerais.
. Lesões neurológicas.

A curto prazo:

. Embolia gordurosa pulmonar originada possivelmente pela passagem de partículas de medula óssea desde a região da fractura até à circulação sanguínea, sendo mais frequente em fracturas de diáfise femural e pélvis. A mobilidade do foco de fractura pode ser um factor contribuinte para tal.

A longo prazo:

. As fracturas e luxações que se associam mais frequentemente a paralisias nervosas são:
. Luxação do ombro: paralisia do nervo circunflexo e raramente outras lesões do plexo braquial.
. Fractura da diáfise do húmero: paralisia do nervo radial.
. Luxação do cotovelo: paralisia do nervo cubital, por vezes com afectação do mediano.
. Fracturas da região do cotovelo: paralisia do nervo mediano, raramente o cubital ou o interósseo posterior.
. Luxações de anca: paralisia do nervo ciático.
. Luxação de joelho ou rotura do ligamento lateral com fractura da parte interna da meseta tibial: paralisia do nervo peronial comum ou ciático poplíteo externo.



Prioridade de atenção nas fracturas

Fracturas vitais com risco de hemorragia:

. Fracturas abertas massivas.
. Fracturas Bilaterais de fémur.
. Fracturas com lesões vasculares associadas (cotovelo, joelho).
. Fracturas de pélvis.
. Amputações de membros.

Fracturas com risco de afectar a função do membro:

. Fracturas articulares.
. Luxações.
. Lesões por esmagamento.
. Fracturas abertas simples.






Fracturas com risco mínimo:

. As restantes.






Fracturas de extremidades mais frequentes na montanha

. Fracturas de mãos e dedos:

Tratamento geral:
vendar toda a mão em posição funcional (como se estivesse a segurar uma bola de ténis). Elevar o membro com um lenço com a ajuda de um lenço triangular ou outro improviso e providenciar o transporte a um centro hospitalar.






. Fracturas das falanges dos dedos, excepto o polegar

Tratamento: imobiliza-se o dedo lesionado colocando uma compressa entre esse dedo e o dedo do lado. De seguida unem-se os dois dedos com fita adesiva ou uma ligadura. Deixando o leito ungueal  à vista para controlar a correcta circulação do sangue.





. Fracturas que afectam o antebraço

As fracturas do rádio e do cúbito são as mais frequentes por traumatismo significativo, por ex. queda de uma altura significativa. As fracturas isoladas do cúbito surgem, geralmente, devido a golpes directos no antebraço, por ex. uma bastonada. As fracturas isoladas do rádio são ocasionadas por quedas sobre a mão estendida para fora ou por golpes directos.






Tratamento generalizado:
 Imobilizar o pulso e o cotovelo a 90º.





. Fractura de escafoides

É o osso do carpo que se fractura com maior frequência.
Mecanismo: Queda sobre a mão em flexão dorsal ou golpe directo sobre a região dorsal da mão por baixo do estiloide radial.

Pesquisa:
Em lesões recentes, pode existir edema da caixa anatómica (pequeno afundamento na zona do pulso que se observa ao levantar o polegar para cima).

Palpação:
Dor à pressão digital da caixa anatómica.

Mobilidade:
Dor e limitação dos movimentos do pulso.

Perante a suspeita clinica, mesmo que a radiografia seja negativa, deve imobilizar-se a mão e repetir a radiografia  passados 15 dias, momento em que a reabsorção óssea torna mais visível o foco da fractura.

Tratamento:
Resgatador: Imobilização em posição funcional e evacuação.
Socorrista/montanheiro com meios e conhecimentos suficientes: Imobilizar o pulso em pronação completa, desvio radial, dorsiflexão moderada e o polegar em abdução intermédia.
Coloca-se uma tala e imobiliza-se o membro. Deve-se evitar imobilizar as articulações da flange distal do polegar e do cotovelo

Tempo de imobilização: 1,5 a 4 meses.




. Fractura da extremidade inferior do radio

A mais frequente é a fractura completa (afecta o osso cortical todo) extra-articular  com desvio posterior (dorsal) de fragmento distal (fractura de Colles).




Mecanismo:
Queda sobre a mão, estando esta em híper-extensão.

Pesquisa:
Aspecto de forquilha.

Palpação: 
Realce por defeito da continuidade óssea na face dorsal do braço. Dor selectiva à pressão, no foco da fractura.

Mobilidade:
 Impotência funcional.

Sempre que se diagnosticar uma fractura de Colles, é necessário procurar lesões associadas nos escafoides, cotovelo e ombro.


Tratamento:
Resgatador: Aplicação de curativo compressivo e evacuação para centro hospitalar.
Socorrista/montanheiro com meios e conhecimentos suficientes: Antes da manipulação, deve-se colocar talas e imobilizar o membro entre o olecrano e as cabeças dos metacarpos.
Reducção (apenas efectuado por profissionais):
Infiltração no foco da fractura de 5-10cc de lidocaína. O cotovelo flexiona-se em ângulo recto e um ajudante segura-o com os dedos entrelaçados, aplica-se então tracção na direcção do eixo do antebraço. Quando se reduz a tracção confirma-se a desimpactação do fragmento distal, que preso entre o polegar e o indicador, pode-se mover facilmente na direcção anterior e posterior.
De seguida estica-se o cotovelo, coloca-se uma mão sobre a superfície dorsal do fragmento distal do radio com os dedos debruçados sobre o pulso e a palma da mão do lesionado, e utilizando a outra mão como ponto de apoio, aplica-se uma pressão em sentido anterior que corrigirá o resto das deformidades. Mantendo a tracção, muda-se a posição de forma que a palma da mão seja capaz de empurrar o fragmento distal no sentido cubital e corrigir o deslocamento radial.
Então muda-se a posição das mãos para facilitar a colocação de talas, pelo que uma mão segura o dedo polegar do sinistrado em extensão completa e a outra mão segura os três dedos centrais do sinistrado, mantendo uma ligeira tracção.

Imobilização:
Imobilizar o membro desde as faces anterior externa e posterior do radio.  Deve-se imobilizar em desvio cubital sem fazer demasiada flexão do pulso. O cotovelo flexiona-se a mais de 90º mantendo a mão mais alta que o cotovelo e efectua-se a imobilização precoce dos dedos para evitar o edema.
Imobilização: 40 dias.



. Fracturas que afectam o cotovelo, braço e ombro

Tratamento generalizado:
cabresto e transporte para um centro hospitalar.





. Fractura do úmero

As fracturas da porção proximal do úmero são lesões relativamente frequentes. Geralmente são resultado de traumatismo directo ou indirecto.

Pesquisa:
Dor e braço instável. Explorar a função do nervo radial.

Tratamento:
Talas ou cabresto e transporte para um centro hospitalar. Nas fracturas de aproximadamente 1/3, se forem estáveis coloca-se um curativo tipo Velpeau, e se forem fragmentadas usa-se um cabresto. Nas fracturas de diáfise ou supracondiliana coloca-se uma tala ou uma ligadura compressiva deixando o cotovelo em ângulo recto.





. Fractura da clavícula

As fracturas da clavícula e as lesões da articulação acromioclavicular (da apófise terminal, da espinha da omoplata com a clavícula) são muito comuns. As primeiras contribuem com quase metade do número de lesões significativas na zona do ombro.
Mecanismo: Golpe directo ou queda sobre o ombro com o braço junto ao corpo.




Pesquisa:
O sinistrado apresenta o ombro encolhido e tem tendência a segurar no braço para evitar a tracção sobre o foco da fractura devido ao peso do braço. Na fractura do terço médio (75% das fracturas de clavícula) observa-se uma proeminência óssea.

Palpação:
observa um ressalto ósseo doloroso à pressão no foco da fractura.

Mobilidade:
Impotência funcional devido à dor.





Tratamento:
O tratamento baseia-se no seguinte:
. Fornecer suporte à extremidade, a qual deixou de ser segura pela clavícula, o que se consegue com um cabresto.
. Evitar a movimentação anterior do omoplata em volta do tórax, o que se consegue fazendo pressão na região anterior do ombro através de um cruzado em 8.





Reducção:
A fractura do terço médio reduz-se puxando os ombros para trás, auxiliado pela colocação do joelho do socorrista na coluna dorsal do ferido.

Imobilização:

Fractura do terço médio: cruzado em 8, inspecionando-o a cada 3 ou 4 dias para evitar erosões da pele na axila, compressões vasculares ou nervosas e folga do cruzado em 8.



Fractura do terço externo: cabresto com correia de suspensão cotovelo-ombro.

Tempo de imobilização: 4 a 6 semanas.






Membro inferior:


. Fractura do cólo e terço superior do fémur

As fracturas pélvicas constituem apenas 3% de todas as fracturas ósseas, embora conduzam a uma importante mortalidade, especialmente quando estão abertas. Em termos ortopédicos a fractura pélvica é a mais letal, oscilando entre os 40% a 60%. A sua elevada morbilidade está associada a lesões de órgãos intrapélvicos e a grandes vasos. A mortalidade precoce surge devido a hemorragia abundante incontrolável (no espaço retroperitonal podem acumular-se até cinco litros de sangue). As fracturas da diáfise femural são frequentes em quedas. Devido à irrigação abundante, o fémur pode acumular nos tecidos moles adjacentes, de um a quatro litros de sangue, conduzindo ao choque hipovolémico.


Mecanismo:
Rotação da perna com queda.

Pesquisa:
Encurtamento e rotação externa da perna.





Palpação:
 elevação da proeminência trocantérica e compressão bitrocantérica dolorosa.

Mobilidade:
Impotência funcional com a mobilização activa. Mobilidade passiva limitada e dolorosa.




Tratamento:
Resgatador: Aplicação de uma tala e transportar o sinistrado para um centro hospitalar.
Socorrista/montanheiro com meios e conhecimentos suficientes: Fazer tracção do pé com a perna em extensão, realizando suavemente rotação do membro para o alinhamento correcto. Colocação de ligadura de algodão ou celulose, desde a raiz dos dedos até ao terço médio do músculo. Colocação da tala de Thomas que abranja até ao terço médio do músculo, segurando a perna com uma ligadura. Se não existir ao dispor esta tala, coloca-se uma tala de madeira transversal ao eixo da perna no calcanhar do sapato para evitar as rotações do pé. Deve-se colocar uma almofada ou por exemplo, um saco cama ou um blusão de penas, entre as pernas.


Providenciar de seguida o transporte até um centro hospitalar.
Uma boa imobilização também é importante para evitar a mobilidade excessiva, que pode contribuir para o aparecimento de uma embolia gordorosa pulmonar. A imobilização contribui ainda para a estabilidade hemodinâmica.
Perfusão intravenosa de soro fisiológico para evitar o choque hipovolémico (apenas profissionais) devido ao grande volume de sangue existente no foco da fractura.

. Fractura da Tíbia e Peróneo

As lesões na perna compreendem fracturas a nível da tíbia e do perónio. Podem surgir devido a trauma directo ou como resultado de forças de torção. As fracturas da tíbia apresentam elevado nível de complicações.

Sintomas e sinais

Fractura de peróneo:
Dor local, tumefacção, impotência funcional discreta que não impede o sinistrado de caminhar.

Fractura da tíbia:
 Deformação, impede de caminhar.




Tratamento:
Se as fracturas não estiverem deslocadas, imobiliza-se a perna com o joelho ligeiramente flectido. Se as fracturas estiverem deslocadas, imobiliza-se provisoriamente na posição mais confortável para o sinistrado.





. Fractura do Talo e do calcâneo

O calcâneo é o osso do tarso com maior tamanho e que se fractura com maior frequência. A lesão pode ser resultado de um mecanismo compressivo consecutivo a uma queda de certa altura. São frequentes na escalada. Do conjunto das fracturas do calcâneo, 10% estão relacionadas com compressão lombar, enquanto que 26% se referem a outras lesões da extremidade.
A fractura do talo produz frequentemente necrose vascular, o que provoca uma osteoartrite secundária que pode limitar a prática desportiva.

Tratamento:
Imobilização e transporte para um centro hospitalar.




. Fractura do Metatarso

A gravidade e o prognóstico dependem da alienação dos fragmentos e do número de metatarsianos lesionados. As fracturas afastadas do 1º e do 5º metatarso são as que provocam mais alterações funcionais no apoio do pé.

Mecanismo:
. Golpe directo.

. Fractura por fadiga devido ao esforço prolongado, estas fracturas são típicas da marcha prolongada ou corridas a pé e ocorrem na diáfise do 2º e 3º metatarso. Por vezes a linha da fractura não é visível até decorrerem 2 a 3 semanas depois do aparecimento da dor e da tumefacção dorsal do pé.

. Fractura por sobrecarga ao torcer o tornozelo ou apoiar mal o pé. A pesquisa de uma entorse do tornozelo deve incluir a pressão digital da base do 5º metatarso para excluir fracturas.


Fracturas das Falanges dos pés

Mecanismo:
Golpe directo.

Pesquisa:
Edema local, hematoma tardio. As fracturas das falanges distais podem-se associar a hematoma subungueal.



Palpação:
Dor

Mobilidade:
 Impotência funcional activa e passiva.

Tratamento:
Imobilização: o dedo fracturado une-se ao dedo adjacente com fita adesiva, colocando previamente uma compressa entre os dedos para evitar maceração da pele. Deve-se deixar o leito ungueal à vista para controlar a correcta circulação do sangue.
Tempo de imobilização: de 20 a 30 dias.


Como temos vindo a alertar, não basta a leitura atenta destes artigos para se considerarem aptos para prestar socorro. Todos estes métodos acarretam perigos, muitas vezes de vida, quando mal executados. Insistimos para que frequentes um curso de socorrismo, onde terás oportunidade de adquirir conhecimentos e treinar todas estas técnicas, supervisionado por pessoas experientes na matéria.
Nunca esqueças a regra de ouro, “não sabes, não mexas”.




Boas caminhadas

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