30 abril 2015

“Febre da Carraça”

Na sequência do último artigo publicado e elaborado pela nossa associada Drª Teresa Macedo, damos continuidade ao tema:





Forma de apresentação da doença


O período que decorre desde a picada pela carraça até ao início das manifestações clínicas pode ir de 4 a 12 dias. Geralmente surge febre que é elevada e acompanhada de sintomas gripais – dores de cabeça, abdominais e musculares, calafrios, e após 4 a 5 dias surge o exantema – manchas avermelhadas, punctiformes, que começam geralmente a aparecer nos membros, inclusive na palma das mãos e planta dos pés, e rapidamente se espalham para o resto do corpo. Demoram cerca de 8 a 10 dias a desaparecer sendo que por vezes ficam com uma coloração acastanhada até desaparecerem.



O diagnóstico é fundamentalmente clínico e ajuda bastante se ainda se conseguir encontrar a carraça ou o local da picada. A picada tem aspecto de ferida, de cor negra, vulgarmente designada por “tâche noire”. Nalguns casos podem palpar-se gânglios com características inflamatórias junto ao local de inoculação. O local da picada localiza-se frequentemente em locais pouco evidentes, como a parte detrás das orelhas, no couro cabeludo, nas axilas, por entre os dedos dos pés e nas virilhas. Pode também estar em zonas de pele descoberta, mas pode apresentar uma reduzida dimensão e ser confundida com um sinal cutâneo.












O que fazer





1.     Uma vez feito o diagnóstico, o tratamento com antibiótico deve ser iniciado o mais cedo possível, de modo a evitar complicações orgânicas – falência do coração, rins, fígado e alterações hemorrágicas, entre outras.

          a. Doxiciclina em doses de 200 mg/dia durante 10 dias, embora outras tetraciclinas são também utilizados.
          b. Outras alternativas: fluoroquinolonas e claritromicina, cloranfenicol, azitromicina e josamicina.

2.    Se ainda se detectar a carraça, esta deve ser retirada com éter ou alcóol e com a ajuda duma pinça, de modo a retirá-la na totalidade (uma tarefa nem sempre fácil!).

a. Usar se possível uma pinça para prender a carraça o mais junto à pele possível e depois puxá-la com força sem fazer movimentos de rotação. Não se deve dobrar ou rasgar a carraça porque pode levar a que peças bucais permaneçam na pele (se isso acontecer, deve-se remover as peças bucais restantes com uma pinça).
b. Depois de retirar o agente, deve-se desinfectar o local da picada e lavar bem as mãos com água e sabão.
c. Se se optar por retirá-la com os dedos, usa-se um pano e quando terminar lavar muito bem as mãos.






Prevenção


Quando realizamos actividades ao ar livre, principalmente em zonas onde a vegetação é densa, devemos:

1.     Reduzir a área de pele exposta, usando camisa de mangas compridas, calças compridas e sapatos fechados;

2.     Usar roupas de cor clara

3. Ao regressar a casa, inspeccionar cuidadosamente toda a roupa e corpo, em especial a cabeça e o pescoço, bem como as áreas onde a roupa está mais apertada, como a cintura e as axilas, quer das crianças, quer dos adultos. Se possível usar um espelho de corpo inteiro para ver todas as partes do corpo. Caso se encontre uma carraça, esta deve ser imediatamente removida.

a. Se for encontrada uma carraça numa criança. NÃO SE DEVE ENTRAR EM PÂNICO!!!. Felizmente, só uma pequeníssima percentagem de carraças estão infectadas. Pelo que só deve recorrer ao médico se surgirem queixas ou sinais sugestivos da doença.




4.     Com os animais de companhia também devemos ter os seguintes cuidados:

a.    Sempre que regressem da rua, devem ser inspeccionados para detecção de carraças, devendo estas ser removidas;
b.    Devem usar coleiras ou produtos repelentes, recomendados pelo veterinário.

5. Existe a possibilidade de aplicar repelentes contendo permetrina ou com DEET (N-dietil-m-toluamida). Devem ser tomadas precauções na aplicação desses repelentes em crianças, uma vez que tem sido associado com reações adversas.

6. Nota importante: Não se devem colocar fontes de calor junto aos bichos para os remover (cigarro por exemplo) pelo risco de aumentar o volume de uniculação. 





A melhor arma: a prevenção

BOAS CAMINHADAS!!!

22 abril 2015

“Febre da Carraça”

Esta semana vamos começar a abordar um tema que nos deve preocupar quando vamos caminhar na serra, as carraças. Este trabalho exaustivo foi elaborado pela nossa associada, Drª Teresa Macedo, a quem desde já o CMB agradece a colaboração. Esperemos que seja do vosso agrado.





“Febre da Carraça”


. Febre da carraça
. Introdução
. Definição da doença
. Ciclo de vida da carraça
. Forma de apresentação da doença
. O que fazer
. Prevenção












Introdução





Vulgarmente designada por “febre da carraça”, a febre escaro-nodular (FEN) é a rickettsiose com maior impacto em Saúde Pública em Portugal.



O receio do aumento de casos de morte devido à febre da carraça em Portugal – só em 2012 foram confirmadas 220 infeções e morreram 10 pessoas – levou o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) a intensificar a vigilância, controlo e prevenção nesta área. Os distritos mais afectados têm sido Beja e Bragança.




Definição da doença





A FEN é causada por uma bactéria, a Rickettsia conorii, que infecta frequentemente a carraça. Só surge doença no ser humano após a picada por uma carraça infectada. A bactéria em questão causa uma lesão inflamatória dos vasos sanguíneos, denominada vasculite, que a nível da derme é responsável pelo exantema (ou manchas).



A doença ocorre fundamentalmente nos meses de Verão, quando são mais frequentes as actividades ao ar livre e manifesta-se principalmente por febre elevada e exantema.



Existem ainda outras doenças transmitidas por carraças, como a Borreliose de Lyme, Febre Q, Tularémia, e Ehrlichiose, que não serão abordadas nesta apresentação.






Ciclo de vida da “Carraça”





Em geral são as carraças adultas que chamam mais a atenção pelo seu tamanho; sobretudo as fêmeas que ingurgitadas com sangue aumentam várias vezes de volume. As carraças passam cerca de 90 % da sua vida fora do hospedeiro e encontram-se mais activas na primavera e verão e em zonas rurais, factores que devem ser tidos em conta em qualquer programa de controlo de carraças. O crescente aumento do número de hospedeiros (nomeadamente cães e gatos abandonados) e um clima cada vez mais com características tropicais resultantes do aquecimento global, alertam-nos para uma proliferação destes parasitas e o consequente perigo em termos de saúde pública.




Uma fêmea grávida deposita no chão cerca de 2000 a 4000 ovos, podendo atingir um número superior a 12000. Cerca de um mês depois nascem as larvas, sobem a vegetação e aguardam até que um hospedeiro conveniente passe ao qual se fixam. Após alguns dias, já totalmente ingurgitadas, caem no chão, procuram abrigo e transformam-se em ninfas, que por sua vez procuram a sua “refeição”, ingurgitam, destacam-se e transformam-se em carraças adultas. Nessa altura as fêmeas adultas trepam a vegetação, aguardam a passagem de um “cliente” de eleição, permanecendo sempre no mesmo uma a quatro semanas até que se destacam, caem no chão e procuram abrigo em locais com alguma humidade, preferencialmente em zonas de vegetação de baixa e média altura. É neste comportamento que reside em parte a explicação para o facto de animais em pastoreio, cães após um dia no campo ou em zonas cinegéticas serem as “refeições” sanguíneas predilectas para estes parasitas.




Na maior parte dos casos, as carraças precisam de estar fixas ao seu hospedeiro durante pelo menos 24 horas para transmitirem os microrganismos causadores da doença, dependendo do agente patogénico. Os vírus podem ser transmitidos em minutos, embora as bactérias e os parasitas precisem de mais tempo. As carraças depositam os seus ovos no solo, em vegetação de dimensão média e alta, que apresentem algum grau de humidade. No verão, e especialmente nas horas mais frescas do dia (de manhã ou ao final da tarde), as carraças instalam-se na ponta das ervas e arbustos, sendo por isso mais fácil a sua passagem para os animais. Os locais que apresentam maior risco são os parques e jardins, havendo também uma maior prevalência de carraças na zona interior do país.



No próximo artigo continuaremos com esta temática de acordo com indice apresentado no início. Até lá...

Boas caminhadas