05 junho 2013

Prever a meteorologia em Montanha (Parte 4)




A interpretação popular do tempo

A Lua

Irmã de Apolo, filha de Júpiter e autorizada a permanecer solteira, a Lua tem sido a raínha incontestada da meteorologia popular. Muitas vezes nos surpreende quando se eleva imensa e brilhante na noite. A sua imagem atravessa obliquamente as camadas de ar, as quais, portadoras de um elevado grau de humidade se comportam como uma enorme lupa.





Se a Lua nos apresentar um aspecto brilhante, com contornos bem nítidos é sinal de tempo bom e seco, mas se pelo contrário, ela estiver esfumaçada, com côr pálida, contornos esbatidos e cercada por um anel esbranquiçado, é sinal de mau tempo, ou pelo menos, de tempo húmido. Como diz o ditado: “Lua à tardinha com seu anel, dá chuva à noite ou vento a granel”.





Se ao nascer, a Lua apresentar uma cor vermelha, é sinal de vento. Se a luz for amarelada indica-nos chuva. Na Lua Nova e nos primeiros dias seguintes, se a luz for pálida e se aparecerem halos (círculos luminosos que por vezes aparecem em volta do Sol e dos Planetas), é sinal de chuva. Quando ao nascer e ao pôr da Lua, se sentir uma pequena aragem de mau tempo, esta mesma aragem aumentará, o mesmo acontecendo com a chuva, mas não acontecendo, no entanto o mesmo, com o vento em caso de bom tempo.
Existem diversas crenças populares de interpretação errada relativamente à Lua e que não assentam em qualquer base ciêntifica, como seja por exemplo, a de que nas proximidades da Lua Nova há maior probabilidade de mau tempo e de que o vento é mais forte nas noites escuras do que nas noites claras. Esta circunstância resulta, apenas da influência da escuridão da noite no nosso espírito, o que torna mais pesado o ambiente em que nos encontramos e que iluminado pelo Sol ou pela Lua, nos daria a impressão de uma maior tranquilidade. Esta razão leva os marinheiros a acreditar que o Sol e a Lua comem o vento e que este aumenta e refresca quando a Lua se esconde do horizonte, o que deu lugar ao ditado muito conhecido “Lua deitada, Marinheiro em pé”. No entanto, quase todos interpretam erradamente este ditado, pois como é sabido, a primeira parte da Lua deitada não se refere à posição mais ou menos horizontal da Lua nos Quartos e Lua Nova, mas sim ao facto dela já se ter escondido no horizonte, o que torna a noite mais escura e obriga por isso, a uma maior e mais atenta vigilância, quando se navega. Esta será a verdadeira interpretação deste ditado, e não a que geralmente se lhe dá.
Também é vulgar dizer-se sem qualquer razão científica que tal justifique, que o tempo que fizer no quinto dia depois da Lua Nova será o que mantém até ao final dessa lunação. “Se pinta quinta, se pinta em quinta, trinta”.
Diz.se, ainda, que se trovejar na Lua Nova, é de crer que o tempo será chuvoso até ao fim da lunação, e daí o ditado  “Lua Nova trovejada, trinta dias é molhada”.





Depois de falar dos indícios fornecidos pela Lua, vamos agora falar dos que nos são fornecidos pelas estrelas.

As estrelas

 Em noites em que o céu se apresente limpo, se as estrelas tiverem pouco brilho, é sinal de mau tempo e chuva. Por isso se diz: “Sem nuvens o céu, e estrelas sem brilho, verás que a tormenta te põe num sarilho”.
Se pelo contrário, elas tiverem muito brilho e cintilarem com intensidade, será sinal de que haverá mudança de tempo e se o brilho for mesmo excepcional, indica-nos que o vento aumentará de intensidade, ou que existe a possibilidade de chuva.
Se no Verão, com vento Leste, as estrelas se nos afigurarem de um tamanho bastante maior do que o normal, é sinal de chuva para muito breve. Quando elas nos aparecem em grande número e com um cintilar muito vivo, é sinal de frio no Inverno e bom tempo no Verão.





Como verificamos, de uma maneira geral, todos os elementos da natureza são capazes, quando observados em determinadas circunstâncias, de nos fornecer indicações para a previsão do tempo, e assim, continuando, falaremos agora do nevoeiro:

O nevoeiro

O nevoeiro, normalmente, é prenúncio de bom tempo, embora por vezes possa anunciar chuva. O nevoeiro nunca se forma com o céu nublado ou com muito vento. Quando o nevoeiro anda baixo e, muito especialmente, quando anda pelos vales, é sinal de bom tempo, e se pelo contrário anda pelo cume dos montes é sinal de chuva. Daí o:  “Se a névoa ao vale baixar, vai para o mar, mas se pelos montes se atrasa, fica em casa”.
No Verão e no Outono, um nevoeiro ténue, de manhã, que desaparece com o Sol, é sinal de bom tempo. Se ele se forma com Sol é de contar com chuva, ou pelo menos tempo enevoado todo o dia.





Se se formar nevoeiro para W com bom tempo, é sinal de mudança de tempo ocorrendo vento forte dessa direcção. É também, de contar com vento forte de W ou SW, quando uma barra de nevoeiro se forma numa dessas direcções. Quando, após um tempo chuvoso, ou melhor, mau tempo, aparece nevoeiro, este indica-nos o final da tempestade e o início do bom tempo. “Depois de chuva, nevoeiro, tens bom tempo, marinheiro”.





Os ditados populares são o testemunho de muita sabedoria. São a síntese de um saber colectivo de gerações. Neste contexto fez-se uma pesquisa e partilhamos aqui alguns desses outros ditados relacionados com a meteorologia:





. “Se o Inverno não erra caminho, temo-lo pelo São Martinho”
. “Entrudo borralheiro, Páscoa soalheira”
. “Leste escuro, Sol seguro”
. “Céu escamado, ao terceiro dia molhado”
. “Chuva de ascensão, dá palhinhas e pão”
. “Assim como vires o tempo de Santa Luzia ao Natal, assim estará o ano mês a mês até final”
. “Alto mar e não de vento, não promete seguro o tempo”
. “Gaivotas em terra, tempestade no mar”
. “Se em Outubro te sentires gelado, lembra-te do gado”
. “Boa noite, após mau tempo, traz chuva e vento”
. “Dezembro frio, calor no estilo”
. “Abril molhado, sete vezes trovejado”
. “Depois da tormenta, sempre vem a bonança”
. “Em Abril, Águas mil, canta o carro e o carril”
. “Abril, ora chora, ora ri”
. “As manhãs de Abril são doces de dormir”
. “Em 1 de janeiro sobe ao outeiro, se vires verdejar, põe-te a chorar, se vires terrear, põe-te a cantar”
. “Em Janeiro, seca a ovelha no fumeiro, em Março no prado e em Abril, se vai urdir”
. “Em Janeiro, 7 capelos e um sombreiro”
. “Aproveite Fevereiro, quem folgou Janeiro”
. “Em dia de São Matias, começam as enxertias”
. “Fevereiro quente, traz o diabo no ventre”
. “Neve em Fevereiro, presságio de mau celeiro”
. “Quando não chove em Fevereiro, nem pratos nem centeio”
. “Abril frio e molhado, enche o celeiro e farta o gado”
. “Não há mês mais irritado do que o Abril zangado”
. “Em Maio, cerejas ao borralho”
. “Maio frio, Julho quente, bom pão, vinho valente “
. “Guarda pão em Maio, e lenha para Abril”
. “Em Junho, foice em punho”
. “Junho floreiro, paraíso verdadeiro”
. “Chuva Junhal, fome geral”
. “Ande onde andar o Verão, há-de vir no São João”
. “Julho fresco e Janeiro chuvoso, ano perigoso”
. “Em tempo de cuco, pela manhã molhado e à tarde enxuto”
. “Não há melhor amigo, que o Julho com o seu trigo”
. “Em Agosto, orvalho no rosto”
. “O mês de Agosto, será se for bonito, o 1 de Janeiro”
. “Em Fevereiro chuva, em Agosto uva”
. “Ao quinto dia verás que mês terás”
. “Água de Julho, no rio não faz barulho”
. “Vindima molhada, pipa depressa despejada”
. “São Miguel soalheiro, enche o celeiro”
. “Águas verdadeiras, por São Mateus as primeiras”
. “Em Outubro sê prudente, guarda o pão, guarda a semente”
. “Vindima em Outubro, que São Martinho to dirá”
. “Outubro quente, trás o diabo no ventre”
. “Em Novembro, pelo São Martinho, lume, castanhas e vinho!...”
. “Pelo São Martinho, deixa a água para o moinho”
. “Nevoeiro de mais de três dias, durará oito”
. “Dos Santos ao Natal, ou bom chover ou bom nevar”
. “Se em Novembro ouvires o trovão, o ano que vem será bom”
. “Assim como vires o tempo de Santa Luzia ao natal, assim estará o ano, mês a mês, até final”
. “Mal vai a Portugal, se não há três cheias antes do Natal”
. “Ande o frio por onde andar, pelo Natal há-de chegar…”






Tipos de tempestade

Na essência, as tempestades podem ser de dois tipos: Frontais Isoladas ou Locais.





1 - Frontais

Este tipo de tempestades surge nas perturbações de frente polar, originadas normalmente por uma frente fria, mas que como veremos, também pode ser originada por uma frente quente. Não dependem das condições locais, mas sim da colisão das massas de ar, que são tanto mais violentas quanto mais húmidas e instáveis seja a massa de ar quente e ainda assim a convecção também tem aqui uma parte interveniente.

De frente fria

Pode ser formada tanto por uma frente fria primária, como por uma secundária. Costuma-se classificar esse tipo de tempestade como sendo a mais perigosa de todas, devido à sua rapidez, bem como à sua violência. Se o ensacamento de ar frio sobre o ar quente for poderoso, o mau tempo estará para durar, mas apenas o tempo que demore a passar a linha da frente.





A sua característica principal, como a de qualquer frente, é que pode chegar a qualquer momento do dia ou da noite e além disso, precedida de uma melhoria temporal de algumas horas com céu a apresentar-se limpo ou estrelado. Os relâmpagos, ainda sem o som do trovão, anunciam o seu avanço eminente (de Oeste ou Sudoeste). Quem for surpreendido na montanha por tal evolução nas primeiras luzes da madrugada, saberá que tardará pouco para começar a batalha. Esta situação é ainda mais arriscada se um montanheiro se encontrar nas vertentes Norte ou Oeste da montanha, pois a visão do céu será parcial e o seu bom aspecto pode-se manter com “boa cara” até à explosão de fúria dos elementos.
As frentes frias empurradas por fortes ventos, frequentemente oceânicos, podem originar tempestades invernais. Manifestam-se principalmente sobre os relevos montanhosos, acompanhados de nevões intensos mas breves.





A surpresa da chegada de uma frente fria, pode ainda ser maior, quando a clássica perturbação “frente quente, frente fria” possui uma linha de frente quente menor. Os montanheiros que se encontrem numa cadeia montanhosa situada a Sul desta frente, não beneficiarão das mensagens alarmistas das nuvens habituais e receberão a frente fria sem os habituais avisos prévios.
Normalmente, entre os meses de Outubro a Abril os Cb não estão tão desenvolvidos em altitude como no verão de forma a produzir granizo. Nestas massas de ar polar, a tropopausa está baixa (a cerca de 8.000 ou 9.000 m) e detém o empurrar da nuvem tempestuosa.

De frente quente

Estas tempestades, como se disse já, não são tão frequentes como as de frentes frias, nem tão poderosas. Desenvolvem-se no interior de vastos sistemas nublosos que acompanham as massas de ar quente e húmido perturbados. Os Cb encontram-se dispersos no seio da massa de ar.
A chegada de uma perturbação deste tipo é progressiva e existe um intervalo de muitas horas entre a chegada das Cs de vanguarda e das massas que se vão precipitar.






2 – Locais (ou Isoladas)

De bom tempo

Também chamadas de “calor”, são de características muito locais. Desenvolvem-se principalmente sobre os relevos favorecidas pelos fenómenos convectivos e/ou orográficos. Ocorrem pela parte da tarde ou ao anoitecer nos dias quentes de Verão nos sistemas montanhosos. Se estes sistemas estiverem, de alguma forma, influenciados por ar húmido oceânico, este facilitará a madureza dos Cb.
O excesso de calor e as camadas baixas, dão lugar a um certo deterioramento da estabilidade geral da atmosfera, mas não provocam um agravamento considerável , visto que a situação geral mantém um carácter anticiclónico. Ainda que muito isoladas, podem repetir-se durante vários dias.
À imagem das tempestades de frentes frias, podem ser violentas e inclusive mais repentinas devido ao seu carácter local. O Cb liberta pontualmente toda a energia solar acumulada num determinado lugar, após um período de calor excessivo. Na maior parte do tempo, o vento dominante é fraco o que supõe um factor agravante, pois a tempestade apenas se espalha libertando toda a sua fúria durante mais tempo e sobre a mesma zona. Pelo contrário, um vento moderado em altitude (de 20 a 40 km/h) diminuirá o risco deste tipo de tempestades, ao deslocar as ascendências e dispersando a humidade das bolhas convectivas que ascendem do solo.
A presença de grandes lagos ou reservatórios na montanha, contribui para aumentar o risco de a tempestade local estourar nas zonas próximas destes, uma vez que o vapor de água que se solta durante o dia, origina uma fonte de alimentação extra.





 Inclusivé no centro de lagos de grandes dimensões, podem-se originar tempestades durante a noite, aproveitando a confluência dos ventos descendentes das vertentes montanhosas.
Este tipo de situações, não é impeditivo para as actividades de montanha na primeira parte do dia. Se o terreno é nevado, as condições não serão as ideais, não apenas porque a temperatura seja alta, mas também porque a possível tempestade do dia anterior, poderá ter deixado bancos de nuvens durante a noite, sendo estas desfavoráveis. Ainda assim disporemos de algumas horas para desfrutar da nossa actividade favorita, isto se nos mantivermos vigilantes aos desenvolvimentos verticais prematuros.
Existem outras variedades de tempestades sobre terra, no entanto com os tipos de tempestades analisados atrás já ficamos com uma base de conhecimento necessária para evitar sermos surpreendidos na montanha.






O Raio

Até chegarem o século XVIII e Benjamin Franklin, não existia uma explicação cientifica para o fenómeno do relâmpago: Um grande raio eléctrico, nem para o trovão: ruido que provoca a expansão explosiva do ar durante o seu percurso.





Hoje sabemos que se produzem devido a diferenças de potencias na ordem de um milhão de volts por metro no interior das nuvens de tempestade, ou entre estas e o solo terrestre. Estas descomunais cargas eléctricas são provocadas pelos movimentos contrários de gelo e água que no seio da nuvem de tempestade sobem e descem freneticamente devido aos ventos. Os relâmpagos podem percorrer uma distância de até 30 km ou arquear a sua trajectória para mais de 10 km de distância do núcleo central da tempestade e à sua passagem a temperatura do ar pode atingir os 30.000ºC. Em todo o planeta ocorrem em média 6.000 trovoadas por minuto. Franklin sonhava em “domesticar” esta energia através de gigantes cometas.





Para não nos focalizarmos demasiado na parte técnica, em benefício da parte prática, resumiremos o tema dizendo que a própria actividade que tem lugar no interior do Cb origina uma clara separação de cargas positivas e negativas (iões), normalmente presentes na atmosfera. As cargas negativas concentram-se na parte inferior da nuvem, que se carrega de electricidade ao mesmo tempo que se acumulam cargas positivas em todos os elementos situados no solo na sua zona mais próxima da nuvem. Esta acumulação é especialmente sentida nas pontas metálicas desse solo. Quando a diferença de potencial é suficiente, produz-se a descarga eléctrica (várias descargas percorrendo o mesmo percurso originam o raio) que se vê como uma luz (relâmpago). Por outro lado produz-se uma explosão (trovão) através do canal de descarga dos gases gerados pelo aquecimento provocado pela libertação dos referidos 30.000ºC alusivos, podendo-se libertar tensões de cem milhões de volts, com intensidade de corrente de várias dezenas de milhar de amperes, e tudo isto a uma velocidade que se calcula entre 10.000 e 100.000 km/s. O raio pode derreter inclusive milímetros de rocha que imediatamente fica vitrificada.





As descargas eléctricas que se produzem durante uma tempestade podem saltar de nuvem para nuvem (relâmpago) ou chegar de uma nuvem até à terra (raio). O raio percorre o caminho de menor resistência entre a nuvem e a terra (a linha mais curta através do ar).
O ar deixa de ser um bom isolante quando está sujeito a uma pressão eléctrica suficientemente alta, pois então ioniza-se e converte-se em condutor e geralmente, nessas ocasiões, sente-se um odor característico a ozono. Um zumbido parecido com o das abelhas e um arrepiar do cabelo anunciam uma descarga iminente.
O raio é electricidade. Quando os mais de cem mil milhões de electrões de um raio normal alcançam o cume de uma árvore não se fica por aí, mas estende-se de imediato em todas as direcções.
Uma descarga eléctrica num determinado ponto irradia-se imediatamente para fora e para baixo, diminuindo o perigo à medida que a distância do ponto de impacto aumenta.
Em consequência existem dois perigos que podem afectar o montanheiro, o impacto directo de um raio e as correntes de terra.

Os possíveis riscos de uma trovoada são:

. Ser alcançado pela descarga de um raio ou do campo eléctrico subsequente à manifestação visível do mesmo, que pode produzir queimaduras graves, lesões internas, inconsciência, falhas do sistema nervoso central, paralisia, etc, e se afectar o sistema respiratório ou cardíaco, sobrevém a morte.





. Pode ser que nenhuma descarga eléctrica nos alcance, mas a simples onda expansiva da explosão, pode-nos fazer perder o equilíbrio e cair, o que poderá causar determinadas lesões.





. Provavelmente não ocorrerá nenhuma das situações vindas a focar atrás, além de uma perda da compostura habitual perante o stress psicológico que a trovoada pode provocar. Nesta situação, a ajuda de um companheiro menos stressado, será imprescindível.

Quando o montanheiro se encontra encurralado por uma tempestade com alto grau de acumulação eléctrica e perante a problemática do momento, é necessário conservar a calma e a serenidade.





Para nos protegermos do mortal impacto directo devemos em primeiro lugar sair de cristas e cumes, e mantermo-nos em locais onde existam saliências ou massas rochosas que estejam mais próximas das nuvens do que nós, que funcionarão como escudo.
As paredes protegem-nos desde que sejam altas e estejamos separados delas de entre 2 a 8 metros.
Evitar as chamadas correntes de terra é mais dificil, no entanto apresenta-se alguns conselhos para evitar ou minimizar as consequências destas:

-          Evitar as zonas molhadas, fendas e canais.

-          Procurar ocupar pouco espaço, colocando os pés juntos e as mãos afastadas do solo, sentados e agachados e se possível sobre objectos isolantes, como uma corda enrolada, um saco de dormir, uma mochila, etc, de preferência secos.

-          Afastar de pequenas depressões, escolher em vez disso uma elevação estreita e fina, uma rocha solta numa zona inclinada é excelente.

-          Não há necessidade de abrigar em pequenos tectos, locais isolados ou pequenas covas. As covas grandes são adequadas se nos mantivermos sentados (na mochila ou algo similar) e afastados das paredes e da entrada (pelo menos a 1 metro de dois lados, do tecto e da entrada e a 2 metros do fundo), no entanto uma cova pode constituir o final de uma fenda ou um desaguamento, pelo que se for este o caso deve-se evitar.






-          Se nos encontramos numa plataforma, devemos sentar-nos no bordo exterior, afastados da parede, se for possível a um mínimo de 1,20 m, ficando atados se existir o perigo de caír após uma descarga eléctrica, colocando a união perpendicularmente ao possível fluxo da corrente eléctrica. Não devemos colocar a corda por debaixo das axilas, o ideal será prender a corda ao tornozelo (o mais afastado possível do coração).

-          Deve evitar-se descer em rappel quando exista perigo de raios, mas pode ser válido se for para nos afastarmos de uma zona de maior perigo.

-          As peças metálicas do equipamento não atraem (contra a crença popular) os raios, apenas são boas condutoras da electricidade, pelo que se aconselha coloca-las afastadas do contacto com o corpo.





Tal como já referimos em publicações anteriores, interpretar a distância que se encontra a tempestade pode ser útil para tomar medidas preventivas. Assim, a distância pode-se calcular contando os segundos que decorrem desde que se vê o relâmpago (velocidade da luz, quase instantânea) até que se escuta o trovão (velocidade do som 340m/seg.) e dividindo esse número de segundos por três. Esse cálculo dir-nos-á a distância aproximada em km. A velocidade de deslocação das tempestades é aproximadamente de uns 30 ou 40 km/hora. Outro método será calcular os segundos passados entre a descarga eléctrica e o trovão, multiplicando-se este número por 340 m/seg. (velocidade do som). O resultado em metros, será a distância a que se encontra a tempestade.





Por último convém lembrar que nos refúgios de montanha e nos veículos, devem ser tomadas também precauções para evitar as correntes de ar que podem atraír os raios, fechando-se  janelas, portas e afastando-nos das chaminés.




Como actuar perante uma tempestade

Indicadores prévios

Quando as tempestades são de carácter local, será difícil prever o local exacto onde se vão formar. Os serviços meteorológicos apenas podem prevenir sobre a possibilidade de formação a nível regional ou num determinado maciço, e não sobre uma montanha ou um vale concretos. Conhecem-se casos em que a velocidade de crescimento de um Cb alcançou a velocidade de 60 km/h, o que significa que se a base da nuvem se formar a 1000 metros de altura, ao fim de 5 minutos, a torre alcançará os 6 km de altura. Isto pode-nos dar uma ideia clara sobre a escassa margem de manobra que podemos ter para agir perante a presença de sinais indicadores num céu pré-tempestuoso, com a finalidade de suspender a actividade e descer para o vale ou procurar um refúgio seguro.






Vamos abordar alguns desses sinais:

. As tempestades chamadas “de calor” são precedidas de um período de uns 7 a 10 dias com temperaturas muito acima do normal.

. As montanhas submetidas à confluência de ventos de distintas proveniências levam todas as características necessárias perante uma situação geral de baixas pressões sem frentes associadas, reforçando ainda mais a actividade convectiva. Isto acontece particularmente, nas zonas influenciadas pelos ventos maritimos carregados de humidade.

. Se antes do meio-dia existirem nuvens cumuliformes com desenvolvimentos verticais significativos sobre as cristas e pendentes orientadas a Sul e a Este, deve-se desconfiar. Se estas se encontrarem a barlavento, ou seja, de frente para o vento dominante, a instabilidade reforça-se ainda mais.





. Se a partir do meio-dia o céu estiver carregado, caótico, com formações nublosas a distintas alturas, pesado e inerte, é muito provável que os cúmulos e inclusive um Cb estejam camuflados entre estratos e outros cúmulos pequenos que nos podem impedir a sua detecção. A atmosfera ficará especialmente aquecida e abafada. No entanto estará presente o regime habitual ascendente de uma brisa de vale. A situação ainda pode ser reversível, pode ser que não chegue a haver tempestade, dependendo da magnitude dos factores já conhecidos.

. Uma elevação brusca da pressão atmosférica com uma prévia pressão inferior à média normal do local, será um dado enganoso. Apenas indicará a iminente erupção de vento e uma mais que provável e posterior descida da pressão.

. A pelagem dos animais carrega-se de electricidade estática, pelo que será aconselhável afastar-nos deles (os rebanhos de ovelhas são muito perigosos).

. Antes de se manifestar qualquer forma de precipitação ou aparato eléctrico, as faixas de vento frio e descendente, fazem-se notar. Pouco a pouco, as toneladas  de ar que o Cb envia, cada vez com mais força, irromperão pelas colinas, anulando as brisas ascendentes dos vales, e aí a “panela” está em vias de transbordar.

. Uma vez que ainda não esteja por cima de nós, e como já vimos anteriormente, primeiro  vê-se o relâmpago e depois ouve-se o trovão. Quanto menor for o tempo decorrido entre ambos, mais próxima se encontrará a tempestade do lugar onde nos encontremos.

. A eminência de um raio é determinada por sinais como um zumbindo ou um sibilar no ar ou pelo eriçamento dos cabelos ou pêlos.



No próximo artigo voltaremos a este tema. Esperamos que os mesmos sejam úteis, pois é com esse objectivo que partilhamos estes conhecimentos.





Até ao próximo… boas caminhadas

29 maio 2013

Prever a meteorologia em Montanha (Parte 3)

Porque costuma estar pior tempo nas montanhas?

Se quisermos uma resposta simples e breve a esta pergunta ela será a de que as montanhas estão à altitude das nuvens. No entanto esta resposta não deixa de ser uma verdade muito vaga, pelo que convém desenvolver um pouco mais o tema.
Num mesmo maciço, as vertentes não beneficiam do mesmo tipo de clima. As cotas a partir das quais começa a encontrar-se a neve são muito diferentes, isto para não falar da vegetação, que é um excelente indicador também revelador desta quantidade de variações. A orografia também tem um papel importante nos fenómenos climáticos locais.



O que mais nos pode interessar saber da atmosfera referente às montanhas? Duas coisas fundamentais que por sua vez explicam três diferentes consequências:

1. A atmosfera atenua as variações de temperatura na superfície do globo, o que quer dizer, que torna mais lento o seu aquecimento e arrefecimento.

Primeira consequência: as variações de temperatura, que são um dos factores que intervêm nas mudanças de tempo, são muito mais bruscas nas montanhas (onde a espessura da atmosfera é menor) do que nas zonas situadas ao nível do mar.

2. A atmosfera filtra os raios solares e retém aproximadamente metade da sua energia. No entanto a eficácia desse filtro atmosférico não é uniforme, uma vez que decresce com a altitude (numa menor espessura de camada de ar existe menor pressão atmosférica).


Segunda consequência: Nas montanhas, o ar filtra muito menos energia solar do que na costa, e tanto menos energia quanto mais alta seja a montanha, pelo que o terreno e a nossa pele estarão muito mais expostos a essa radiação. Se a isto adicionarmos a refracção dos raios solares sobre  a neve e a ausência de vapor de água nos ambientes secos de montanha, o efeito multiplica-se.

Terceira consequência: Os raios solares quando se apresentam bastante oblíquos (quando o Sol está baixo sobre o horizonte) perdem mais energia que os verticais (quando o Sol está sobre as nossas cabeças), e que atravessam uma espessura menor de atmosfera antes de tocar no solo. Isto explica porque é que na planície o Sol aquece menos pela manhã do que ao meio-dia. No entanto, e pelo mesmo motivo, as montanhas aquecem-se primeiro do que as terras baixas (porque recebem em primeiro lugar as radiações uma vez que têm uma menor espessura de atmosfera). Além disso, as ladeiras montanhosas, orientadas a Este (Sol nascente) aquecem-se logo desde a manhã pois oferecem um plano perpendicular aos raios o que se verifica muito antes do que nos vales circundantes.

Para os meteorologistas, as montanhas constituem as áreas preferidas de observação, devido à quantidade de fenómenos que se pode observar em espaços relativamente pequenos.


NUVENS
  

Quando o ar fica saturado de humidade, o aumento do vapor de água, ou o arrefecimento da massa saturada ao elevar-se, provoca a condensação em forma de gotas minúsculas de água ou gelo sobre as diminutas partículas flutuantes na atmosfera formando, assim, as nuvens. Conhecer a forma das nuvens e identificá-las é de grande utilidade na hora de fazer o prognóstico das possíveis mudanças de tempo e interpretar correctamente os boletins meteorológicos. As nuvens identificam-se pela sua forma e pela altura a que normalmente se formam. 


O aspecto exterior de uma nuvem, de uma forma geral,  pode ser identificado da seguinte forma:

. Uma nuvem de gelo apresentará um aspecto liso e fibroso.

. Uma nuvem de água terá perfis mais arredondados e em forma de algodão.

No entanto, as nuvens de água nem sempre apresentam este aspecto, devido a vários factores.


As nuvens cobrem sempre, aproximadamente, metade da superfície terrestre. A sua luminosidade é determinada pela quantidade de luz reflectida, difundida e transmitida pelas partículas que as constituem. Assim:

. Uma nuvem iluminada directamente pelo Sol, é branca brilhante.

. A nuvem é cinzenta e azulada se recebe a luz azul do céu.

. Ao entardecer, a luz de poente proporciona faixas amarelas, laranja ou vermelhas, às nuvens.

. Quando existe Lua, as nuvens iluminadas directamente por esta, são brancas, e as que não o são, tornam-se cinzentas ou negras, quase invisíveis.

. Uma nuvem espessa deixa passar menos luz e a sua base apresenta-se cinzenta.


A observação das nuvens começa pela identificação do género de nuvens sobre a maior percentagem de céu visível, à disposição. Esta primeira tarefa que requer um grande treino, completa-se com o cálculo da quantidade de nuvens. Para tal, agrupam-se mentalmente, de um lado a zona ocupada por nuvens e do outro a zona limpa de nuvens. Se imaginarmos o céu dividido em 8 partes, observaremos quantas partes estão ocupadas por nuvens. 


Deste modo, se o céu estiver limpo podemos dizer que existem “0” partes. Pelo contrário, se estiver totalmente coberto podemos dizer que existem “8” partes. Se soubermos previamente qual o género de nuvens e alguns dos fenómenos que lhes estão associados, conseguiremos realizar certas previsões a curto prazo.

Além de determinar o género e a quantidade de nuvens, por vezes, também é importante observar a direcção de deslocamento das nuvens, pois é um indicador da direcção do vento. Por vezes, quando nos situamos num vale, observa-se uma rápida deslocação das nuvens e no entanto não notamos grande vento na superfície onde nos encontramos. Este detalhe indica-nos a forte velocidade dos ventos nos cumes, o que nos alertará sobre a inconveniência de realizar determinadas actividades a essas altitudes. Outras vezes podemos observar nuvens a diferentes altitudes que se movem em diferentes direcções, o que nos indica uma certa tendência para o pioramento da meteorologia.

As nuvens classificam-se internacionalmente em 10 tipos, englobados em três grandes grupos, segundo a altitude a que se encontram (altas, médias e baixas). Esta classificação tradicional deve-se ao farmacêutico inglês Luke Howard, a qual foi realizada no início do século XIX.

De seguida vamos tentar fazer uma breve abordagem aos diferentes tipos de nuvens, segundo a sua forma ou aspecto e altitude:


Nuvens altas (mais de 5 km de altura) São um grupo constituído por 3 tipos de nuvens que começam  os seus nomes por “cirro” e são geralmente formadas por cristais de gelo. São nuvens pouco opacas, pelo que são pouco visíveis com a luz diurna e mais visíveis com a luz de começo e do final do dia. Básicamente, são originadas por um deslizamento ascendente de uma massa de ar sobre outra, situando-se o ar frio e turbulento nas camadas altas onde se produzem ventos fortes:

Cirros (Ci): Nuvens isoladas brancas e filamentosas em forma de plumas, franjas, novelos, fileiras ou cabeleiras, bancos ou faixas estreitas brancas ou quase brancas, com um aspecto fibroso ou sedoso e sem densidade. Não produzem sombras. Costumam ser presságio da passagem de uma perturbação do tipo frente quente na zona do observador, ou mais a Sul (transformação de tempestade no sentido contrário às agulhas do relógio) por influência de outros factores. Estas nuvens, por si só não são de chuva. Se estiverem isoladas e se desfizerem devagar, são inofensivas. Se se deslocam na cabeça de um sistema nubloso e se tornarem espessas, são sinais de mau tempo e se têm tendência a converter-se em cirroestratos ou altoestratos, o mau tempo estará eminente.




Cirrocúmulos (Cc) São nuvens de escassa densidade, têm aspecto de flocos de algodão ou finos sulcos de areia na praia, brancas, sem sombras próprias, constituídas por elementos muito pequenos em forma de grãos, ligados ou não e dispostos mais ou menos regularmente. A maioria dos elementos têm largura aparente inferior a um grau. O tamanho aparente pode-se medir por comparação com a largura do nosso dedo mindinho. Assim, quando colocamos o braço estendido e o dedo abrange cada uma das bolas de nuvem isso significará que p tamanho desses elementos será de um grau. Geralmente, este tipo de nuvens anunciam que a perturbação está a passar pelo Norte.





Cirroestratos (Cs): Nuvens de gelo em forma de finos véus nebulosos resplandecentes e esbranquiçados, de aspecto fibroso ou liso, que cobrem grande parte do céu e dão origem a auréolas solares ou lunares. Estratificadas e altas, frequentemente esta formação avisa uma calorosa frente de uma tempestade e situa-se na cabeça de uma perturbação, ainda que não seja eminente.




Nuvens médias (de 2,5 a 7 km de altura, são de dois tipos), apresentam uma de estrutura líquida. No entanto alcançam facilmente o limite com as nuvens altas, pelo que também podem conter cristais de gelo que as identificam claramente. Ao contrário das nuvens altas, estas são opacas ou muito translúcidas:

Tipos de nuvens médias:


Altostratos (As): Aparecem como densos e extensos véus fibrosos ou estriados, de cor cinza ou azulada, cobrindo total ou parcialmente o céu dando-lhe um aspecto sombrio. Através destas o sol ou a lua vêem-se vagamente, como através de vidro fosco. Os altostratos não produzem fenómenos de halo. Anunciam mau tempo. Se ficarem muito cinzentas, deixarão cair algumas gotas de água ou flocos de neve. É frequente precederem a uma perturbação, pois nascem do deslizamento lento e ascendente de uma massa de ar húmido sobre a outra.




Altocúmulos (Ac): Possuem uma estrutura similar à dos Cc, mas com as bolas maiores. para calcular o seu tamanho aparente, teremos que estender o braço sendo então necessário utilizar o equivalente a três dedos mindinhos (em termos médios) para as poder cobrir. São nuvens que parecem formadas por flocos brancos ou grisalhos com partes sombreadas e dispostas em grupos que seguem uma ou duas direcções, constituídas por lâminas, massas globulares, rolos, etc, às vezes parcialmente fibrosos ou difusos, ligados ou não. Quando passam pela frente do sol ou da lua, originam coroas circulares coloradas de azul, amarelo e vermelho. Após alguns dias de bom tempo anunciam chuva próxima. Se aparecem com tempo chuvoso indicam melhorias.





Nuvens Baixas (altura inferior a 2,5 km, são de três tipos):


Cúmulos (Cu): Estas são nitidamente as nuvens mais fáceis de identificar à primeira vista. São nuvens isoladas, brancas e densas de textura de algodão e de contornos nítidos. A sua base é quase plana e o cimo em forma de cúpula apresentando protuberâncias arredondadas como espuma espessa. Quando o seu desenvolvimento é considerável, desenvolve-se verticalmente em forma de montículos, cúpulas, torres, etc, cuja região superior toma muitas vezes o aspecto característico da couve-flôr. As posições iluminadas pelo Sol são quase sempre de um branco brilhante, enquanto a base é realmente sombria e sensivelmente horizontal. Por vezes estas nuvens são esfarrapadas e acompanhadas de chuveiros. Geralmente aparecem isoladas e são sinal de bom tempo.






Estratos (St): São nuvens pouco espessas, como o seu nome indica. São de uma camada nebulosa uniforme de côr cinza plúmbeo de base bastante uniforme, é das 10 nuvens classificadas a que evolui mais baixo, ao ponto de se confundir com nevoeiro, mas sem tocar o solo. Estas nuvens têm o seu desenvolvimento mais horizontalmente do que vertical. Quando se vê o Sol através da camada, o contorno é nítido. Por vezes os estratos apresentam-se sob a forma de bancos esfarrapados. A precipitação, quando existe, é sob a forma de chuvisco. São nuvens típicas de tempo chuvoso.





Estratocúmulos (Sc): São constituídos por grandes massas de nuvens bastante espessas, pelo que a sua coloração é escura, cinzenta e/ou esbranquiçada, quase sempre com porções escuras constituídas por massas em mosaico, glóbulos, rolos, etc, de aspecto não fibroso ligados ou não. Apresentam-se normalmente como um imenso lençol ou colchão de algodão (no entanto com algumas abertas). Apesar do seu aspecto ameaçador e da sua extensão quase nunca originam precipitação, mas podem evoluir para nimbostratos. São nuvens geralmente ligadas a perturbações passadas ou próximas e são típicas de uma entrada de ar húmido oceânico sobre uma zona continental.






Nuvens de grande desenvolvimento (Com base entre os 800 e os 1500 m de altura) São 2 tipos de nuvens.

Chegamos finalmente aos dois colossos que sempre precipitarão na forma que lhes convier (água, neve, etc). Ainda que a sua base coincida com a base das nuvens baixas, estas alcançam niveis superiores. O objectivo de uma boa interpretação das nuvens em geral, será evitar encontrarmo-nos na montanha debaixo de algum deste tipo de nuvens.


Assim, existem dois tipos de nuvens nesta categoria e são elas:

Nimbostratos (Ns): São as nuvens características da chuva que cobrem ordinariamente todo o céu dando-lhe um aspecto triste e sombrio. Formam uma capa amorfa de cor cinzenta escura de bordos quebrados, dos quais ao longe se vê por vezes cair a chuva como uma cortina. O aspecto torna-se difuso pela queda mais ou menos contínua de chuva ou neve, que na maioria dos casos alcança o solo. É suficientemente espessa em todos os pontos para ocultar o Sol (centenas de quilómetros). Por baixo da camada existem frequentemente nuvens baixas esfarrapadas, ligadas ou não a ela. O seu aspecto geral, mantem-se vaporoso o que é motivado pelas continuas precipitações. É a típica nuvem de chuva de frente quente, que devido às suas características origina uma precipitação de gotas muito finas, lenta mas contínua no tempo e no espaço.




Cumulonimbos (Cb): De todos os fenómenos meteorológicos que têm lugar na montanha, estas nuvens, sem dúvida, são a maior manifestação de poder que nos pode chegar do céu. São massas de nuvens de grandes dimensões com cumuliformes firmes que se elevam em forma de montanhas ou de torres e cuja parte superior é de estrutura fibrosa e assemelhando-se a uma bigorna. Ainda que a base da nuvem seja baixa, o seu cume pode alcançar 10 km ou mais. Quando a nuvem alcança o seu apogeu produz-se a precipitação em forma de chuva de água, neve ou granizo, podendo originar tempestades de grandes proporções e com aparato eléctrico. Estão compostas de água em todas as suas manifestações líquidas, sólidas ou gasosas e as suas precipitações são de carácter violento, próprias de uma tempestade.





De uma forma genérica, pode-se  dizer que as nuvens baixas que sobressaem nas montanhas são indicadoras de bom tempo e de uma situação anticiclónica com garantias de persistência. As nuvens altas em movimento podem anunciar a chegada de uma perturbação. As nuvens alongadas em forma de peixe e cor acinzentada cobrindo as montanhas, anunciam prováveis tempestades durante o dia. A acumulação de nuvens baixas com forte desenvolvimento vertical, originam a formação de uma tempestade.


Independentemente das nuvens classificadas, convém recordar que cada região montanhosa tem peculiaridades que influenciam a formação das chamadas nuvens orográficas. Estas nuvens são produzidas pela detenção ou elevação das massas de ar, que ao verem-se obrigadas a flanquear as montanhas, permanecem ligadas aos acidentes que as originam.



As nuvens distinguem-se em três tipos gerais:


. Nuvens formadas a barlavento que cobrem os cumes e se desfazem ao descer por sotavento. Produzem-se com pouco vento e muita húmidade.

. Nuvens formadas após a passagem pelos cumes. Fazem-no com vento forte , têm forma lenticular e podem coexistir com as anteriores.


. Nuvens de altitude sobre o obstáculo. Geralmente são altocúmulos ou cirrocúmulos, formados pela existência de uma camada de ar bastante húmida acima da montanha e pouca húmidade na massa que franqueia o obstáculo. São reabsorvidas ao perder altura e ao misturarem-se com ar mais baixo e limpo.



Existe no entanto, um tipo de nuvem, que pelas suas características, merece um destaque especial e mais aprofundado, pelo que vamos então falar mais um pouco sobre:

Cumulonimbo


Denominado Cb na nomenclatura utilizada nos mapas, é a nuvem “braço de ferro” da tempestade. Na realidade, a tempestade pode ser considerada como sendo a última fase do desenvolvimento do Cb, ou por outras palavras, o momento em que este “explode”. O seu nome provém dos termos latinos cúmulo (significa - montão, que tem a ver com o seu aspecto felpudo e volumoso) e nimbo (nuvem de chuva, que se refere à sua grande dimensão). Caracteriza-se por ser uma nuvem muito densa, com uma base ampla, plana e escura, que é acompanhada por um enorme desenvolvimento vertical cumuliforme que lhe concede um aspecto grandioso, parecendo-se com uma enorme montanha nevada. 


Enquanto que o cúmulo em qualquer das suas fases de desenvolvimento, não supera os 5.000 m, o Cb chega a alcançar os 12.000 m, com uma espessura média em altura de 7 km. Como marca de identidade inequívoca, o seu cume aparece coroado de cristais de gelo que lhe proporcionam um aspecto liso e fibroso, parecido com o aspecto dos Cs e claramente diferente do que apresenta as bordas tipo couve-flor, que se forma a menor altitude. Esta última formação do Cb pode terminar com a forma de uma enorme bigorna ou um grande triângulo invertido (a sua ascensão é interrompida quando choca com uma massa de ar mais quente). A sua natureza pode ser convectiva e orográfica em simultâneo.

Os Cb assemelham-se a enormes máquinas termodinâmicas e muitos foram os homens de ciência, que no decorrer da história efectuaram estudos profundos com o objectivo de desvendar o mecanismo físico que dá vida a estes gigantes, animados por uma energia equivalente à que pode ser gerada por uma central nuclear, durante dois dias.

Como se forma o Cumulonimbo


 Inicialmente, é necessário existir um elevado nível de instabilidade atmosférica, que proporcione o aparecimento de ascendências ou movimentos verticais da massa de ar. Duas formas de instabilizar o ar, podem ser, ou o aquecimento do solo, motivado pela acção solar, ou a interrupção em altitude de uma massa de ar frio que vai esfriar lentamente o ar de cima para baixo. Como o ar não aquece directamente ao ser atravessado pela radiação solar, quanto maior for o contraste de temperatura entre a superfície (mais quente) e a altitude (mais frio), maior será a instabilidade, pelo que mais rapidamente ascenderá a massa de ar. A orografia da montanha, quando força a ascensão das massas de ar instável, é determinante para que o fenómeno seja acelerado. No entanto, ainda falta o factor definitivo: a humidade. Quanto maior for esta, ou seja, quanto maior for a quantidade de vapor de água presente na massa de ar, mais rapidamente se origina a sua saturação desta, e a sua condensação transforma-se numa nuvem de natureza orográfica e convectiva do género de um cúmulo.
Vista aérea da evolução de um cúmulo para um cumulonimbo

Em qualquer caso, e devido à sua magnitude, a tempestade, seja do tipo que for, apresenta-se com formações nublosas o suficientemente massivas e típicas para podermos falar de um “sistema nubloso”.


As montanha favorecem o desenvolvimento do Cumulonimbo

O que sucede não apenas devido à sua geomorfologia, mas também:


. Devido à humidade: o ar normalmente mais seco das montanhas é capaz de absorver uma grande quantidade de humidade e mais rapidamente do que em planícies baixas, o que ocorre por razões óbvias. Apenas necessita para o fazer, de calor suficiente.

. Devido à insolação: desde as primeiras horas do dia os raios de Sol incidem perpendicularmente sobre as vertentes orientadas a Este, ou seja, o ar que se encontra em contacto com estas vertentes vai aquecendo desde a manhã, o que não aconteceria numa planície.

Os fundamentos físicos que originam a formação de um simples e inofensivo cúmulo às 10 horas da manhã sobre uma crista de orientação Este, e os que geram um perfeito cumulonimbo que escurece todo o vale, ao meio-dia ou antes, são os mesmos. O que diferencia as duas situações é a magnitude dos factores intervenientes e logicamente, as suas consequências. Em função do grau de instabilidade e humidade, o cúmulo das 10 horas da manhã e com uma espessura de 150 m pode:

. Engordar um pouco mais e inclusive conectar-se com as suas irmãs que se vão formando sobre as ladeiras próximas mais meridionais, à medida que o Sol se eleva e gira, e desta forma alimentando todo o conjunto através de uma actividade convectiva contínua mas ao mesmo tempo moderada, para depois se dissipar de forma pausada ao entardecer, quando o Sol se esconder e a convecção ficar neutralizada.

. Degenerar numa enorme couve-flor que ultrapassa os 3 km de espessura e libertar um aguaceiro contínuo que poderá durar até ao anoitecer.


. Converter-se num autêntico monstro com a sua característica bigorna a 12.000 m do solo, levando à sua frente tudo que se lhe depare, e facilmente continuará a investir a sua fúria pela noite dentro.



Vida própria do cumulonimbo

De facto, animado por uma energia equivalente à que pode gerar uma central nuclear, em plena carga, durante dois dias, a tempestade desencadeada pelo Cb pode prolongar-se perfeitamente para lá das horas diurnas. Como qualquer aparelho com pilhas, se estas estiverem bem carregadas, não necessitará de uma tomada que a una durante o dia à rede convectiva para continuar a funcionar durante a noite.

No processo da mudança do estado gasoso para líquido, que origina o vapor de água na condensação da nuvem, solta-se calor que liberta imensa energia, a qual contribui ainda mais para a instabilidade da massa de ar, catapultando-a novamente para cima, As micro gotas de água que se vão formando, unem-se umas às outras aumentando o seu diâmetro no meio de intensas correntes que sobem e baixam dentro e fora da nuvem. 

Quando as ascensões internas não conseguem suportar o peso das gotas de água, origina-se a precipitação. No entanto, enquanto aquelas caem, principalmente quando a massa de ar na superfície é seca e quente, estas gotas podem-se evaporar antes de chegar ao solo (por vezes observa-se uma cortina de água debaixo de um Cb que se interrompe bruscamente a uma determinada altura). Este fenómeno conhecido como “virga” origina novamente a ascensão deste vapor de água, o qual intensificará novamente os niveis de instabilidade, condensação, calor, etc. O aspecto exterior de todo este processo será o de um desenvolvimento vertical galopante, juntamente com uma base de nuvem cada vez maior, lisa e escura.

À medida que a massa de ar em constante saturação vai ganhando altura, as temperaturas negativas com as quais entra em contacto, originam que a água condensada passe ao estado semi-sólido ou sólido (gelo). Neste momento o cumulonimbo está a alcançar a sua maturidade, em que produzirá as precipitações de carácter mais violento em forma de granizo, mais ou menos suave. No entanto, uns minutos antes e durante estas precipitações, as fortes ascensões correspondem-se com não menos violentas, correntes descendentes que movem toneladas de ar frio contra a superfície terrestre. Após bater no solo, este ar espalha-se em todas as direcções, de forma intensa e tempestuosa. Este fenómeno trás como consequência, a alteração e/ou anulação de outros ventos dominantes da zona e alheios à tempestade, incluindo o regime de brisas do vale. Para se entender melhor, quer isto dizer que o Cb “explodiu” e que a tempestade se manifesta em todo o seu esplendor.


Esperamos ter sido úteis com mais esta parte deste artigo, no próximo artigo continuaremos com o mesmo tema… até lá…


Boas caminhadas